Para Léon que ama imagens com alma.
Ela rabiscava palavras em um pedaço de papel. O dia terminava em um tempo vago, em mais um outono que chegava. Sentada à janela de um velho café, Alice observava quieta a tarde estender lentamente seus minutos em direção à noite. Ela puxou para si o cinzeiro de vidro grosso e acendeu pensativa mais um cigarro. A fumaça saia lentamente pelos seus lábios sem baton e os olhos ainda molhados por lágrimas recentes seguiam aqueles caracóis de ar e tabaco queimado. Havia algo diferente naquela tarde, não pelos acontecimentos recentes de sua vida cotidiana e concreta, não pelo repentino desembocar daquele grande rio represado, pelo jorro daquelas águas tumultuosa. Havia, sim, algo que a luz daquela tarde imprimia em seu estado de espírito, uma sensação que mesclava ao mesmo tempo procura e encontro. Pela posição do sol, cinco horas da tarde. Há muito Alice não se perdia pelas ruas naquele horário. Ela deixara o trabalho no meio da tarde, deixara layouts, fotos e anúncios por fazer; posso imaginar a cara das pessoas do atendimento desesperadas com o trabalho que não seria entregue ao cliente, surpresas com a inesperada atitude... mas ela pegou sua bolsa e saiu rua à fora. Naquela manhã ela passara muito tempo com olhar perdido entre centenas de imagens no computador. Ela precisava encontrar a imagem ideal para uma nova campanha. Com os olhos nas fotografias,mas com o pensamento distante do trabalho, ela lembrava de quando era menina e se perdia entre as fotos dos livros e revistas de sua mãe, uma calada mulher fora de época e lugar. Naqueles dias distantes ,Alice, no meio da tarde, espiava escondida sua mãe sozinha, sentada à mesa da cozinha, no silêncio da tarde de uma cidade do interior, antes de preparar o café para um mundo que não era o seu. As pessoas chegavam; um susto! Alice escapava pelo corredor para o quarto, sua mãe se despedia de seu mundo particular... Ela, Alice, depois, entre as estantes do quarto de costura, olhava quieta as fotos que sua mãe vira há pouco, procurava nestas imagens os sentimentos daquela calada mulher. Na distancia e no silêncio entre as duas, aquelas fotos lhe traziam um pouco de sua mãe e Alice deixava o seu silencioso rio correr.
Há dois anos ela trabalhava como diretora de arte em uma grande agência de publicidade. Alice era uma mulher de muito talento e seria promovida em breve, mas um olhar triste a acompanhava todos os dias. Longe dos primeiros momentos de euforia, havia um constante sentimento de torpor. Ela amava as imagens, cada uma delas poderia levá-la a estados de espírito distantes de seu momento, cada nova imagem poderia conduzi-la por estórias, tristezas, alegrias e promessas sem fim. Neste antigo convívio ela desenvolveu uma capacidade única de criar imagens, contar vidas inteiras sem uma palavra sequer, transmitir sentimentos imensos com apenas um olhar. Mas naquela manhã, sentada ao lado da impressora na agência, ela olhava para as páginas coloridas que sucessivamente saiam da grande máquina de cuspir imagens. Uma foto que seria utilizada em uma campanha de perfumes, uma mulher com os braços que tentavam cobrir um pouco do corpo nu, como os braços de afrodite: um sobre os seios , outro parecia se dirigir ao sexo....os dedos levemente levantados, a delicadeza do gesto de um pudor mínimo, a beleza do sorriso lasso, da boca levemente aberta, como a entrega, o desejo .... Alice acompanhava as tramas entre a luz e a sombra. Um tempo distante a separava daquele momento e a sua alma há muito não estava ali. O ruído repetitivo da impressora, o metal batendo forte, a sucessão de papéis, a mesma foto dezenas de vezes. a marca, o texto vazio ... algo havia sido intoxicado e ela vomitou tudo aquilo, seu estômago não conseguiu mais segurar a náusea. Ela sai correndo pela rua .
Alice deixava-se perder naquela tarde, deixava fluir aquele rio. Olhava a rua, as pessoas que voltavam pra casa entre os raios de um sol cadente, silhuetas de casaco, sacolas… todos apressados e sozinhos… O mundo tomava uma nova dimensão, não parecia que há poucas horas ela acompanhava os metais da produção que tanto a machucaram... Alice olhava a tarde perdida em seus pensamentos, em sentimentos que surgiam a cada instante. Sentada no café, através do vidro, na calçada, longe ... viu um homem, um senhor e seu cachorro. A barba por fazer, branca, ainda àquela hora … um desbotado casaco marrom, os bolsos cheios de papéis inúteis para colher as fezes de seu amigo e velhas botas sem engraxates. Alice os seguia com um olhar terno, como se eles pudessem leva-la para algum lugar seguro, secreto e acolhedor. Ela imaginou o tanto que ele viveu, quantas pessoas passaram pela sua vida, quantos amores, quantas perdas ... O velho abaixava devagar para passar a mão enrugada, de veias altas, dedos frágeis correndo o pelo de seu cachorro. Enquanto as pessoas andavam apressadas pela calçada, ele parava curvado, apenas para fazer carinho em seu amigo... Os olhos de Alice tinham águas profundas naquele momento e desejavam segui-los em seu caminho, mas aos poucos eles sumiram em uma esquina distante. Por que tudo aquilo mexia tanto com ela ? Em seus rabiscos sem sentido, no caderno sobre a mesa do café, ela tentava por alguma ordem em seus pensamentos... Lembrava da mãe, da distância entre elas, na distância do mundo que as cercava naquela cidade do interior, naquele mundo de homens cheios de razões e palavras duras. Só muito tempo mais tarde ela realizou tudo isto... quando pequena Alice pensava apenas que a tristeza de sua mãe não era normal, como ouvira seu pai dizer muitas vezes . Lembrava da delicadeza dos gestos maternos, mas da impossibilidade de alcançá-los. Eram tempos onde a dureza do progresso ditava a necessidade de rasgar brutalmente a terra para arrancar dinheiro ... mal percebiam que faziam isto com as mães e as crianças também ... Suas vozes másculas falavam alto sobre o mundo que estavam construindo a ferro e fogo enquanto a mãe de Alice preparava com suas delicadas mãos, em um silêncio distante, o café dos homens.
O garçom trouxe outra xícara, outro cigarro e a fumaça subia devagar … No pequeno café aquelas lembranças pareciam que nunca poderiam fazer parte de sua vida, o silêncio do passado diluía-se na atmosfera alegre de amigos se reencontrando, abraços, risadas... nas canções que ela tentava acompanhar a letra para sentir a estória e se envolver nela. Eu penso que as canções são como as fotografias para Alice, em cada uma delas você encontra coisas suas, coisas que você conhece ou que você tinha esquecido, e muitas vezes, coisas que você nem sabe ainda que sente, mas que quando você ouve, você entende... E ali Alice navegava pelo tempo ...A luz cadente lhe fazia lembrar de algumas fotos que ela tirara anos atrás, antes de começar a trabalhar. Era um tempo com fome de captar as essências do mundo através de sua pequena câmera fotográfica. Mas longe dos grandes temas, seu interesse era o cotidiano, as pessoas comuns, os momentos mais simples da vida rotineira como a volta do trabalho. Finais de tarde, pessoas comuns voltando para suas casas, quase todas sozinhas… Alice com uma calça velha, uma camisa folgada colocava-se em muros, calçadas, portões de ferro, para captar a luz prateada que desenhava aquelas pessoas contra o nada. Tempos depois ela me mostrou algumas destas fotos e entendi muito bem o seu significado naquela tarde. Com o olhar ela procurava encontrar aquela luz novamente quando viu uma mulher que passava lá longe. Ao longo de seu vulto escuro Alice percebia um ramalhete de flores ! Uma silhueta feminina claramente delineada, o vestido justo, o movimento dos seios firmes, o cachecol flamejante pelo vento … entre a sombra e a fraca luz do poente Alice conseguia distinguir, ou imaginar, um olhar brilhante, um tímido sorriso de mulher que lembra da surpresa de flores no escritório… Ela a acompanhava com o olhar até sua imagem de desmanchar entre uma esquina e os raios pratas de sol. Alice bebia daquela imagem, como se esperasse novamente viver aquele sentimento. Os cabelos longos , mas cacheados, passando delicadamente da altura de seus ombros, a cabeça inclinada para, entre seus passos apressados, olhar levemente as pétalas coloridas sobre sua roupa escura, o sorriso tímido, o pulso do coração contente. Alice pensava em seu amor perdido, sentia que estava distante o dia de amar novamente. Então estas imagens lhe emprestavam um tanto de seu feliz momento. Mas Alice preferia que elas desaparecessem como filetes de vultos negros entre as luzes pratas dos quarteirões mais distantes, assim ela não presenciaria desilusões alheias, nem lembraria das próprias. Estava sozinha há algum tempo, a última perda parecia ter endurecido seu coração, mas ela se perguntava o que fazia doer tanto, o que tinha arrancado um pedaço de si mesma. Aquela mulher com as flores mexera com as lembranças deste amor ...
Foi quando me sentei na mesa ao lado. Nossos olhares se cruzaram e os olhos de Alice me perguntaram desesperadamente sobre tudo. Conversamos durante horas, contamos estórias, rimos e com os dedos discretos procuramos recolher as lágrimas que precisavam sair. Quando Alice descrevia a mulher com a qual viveu durante três anos, seus olhos brilhavam entre alegria e tristeza. Ela descrevia seu corpo, os gestos, os olhos, a beleza de vê-la dormir com os lábios sorrindo por um sonho bom ... A delicadeza do toque, do beijo, do suspiro. Mas depois tudo isto se transformou em tristeza, em desespero ... Alice tinha os olhos cheios d’água, lembrava como se estivesse vivendo de novo... mas distante, sem poder tocar . Rompi com aquele silêncio, dentro de uma estória minha, dentro de uma pergunta dela. Eu passava os dedos pela minha barba branca, como nos dias em que acordava ainda bêbado de dor, com o estômago revirado de desespero, com a solidão corroendo os ossos.
“Eu sempre pensei com um pouco de angustia em um amor eterno, aquele que nasce quando somos jovens, virgens nos sentimentos e que vivemos até os últimos suspiros da vida. Olhar aquele mesmo brilho dentro dos olhos, apesar do rosto envelhecido .... Mesmo hoje, próximo do final da vida, ainda espero como uma inspiração este amor ... Mas ele não veio, ou desapercebido ...deixei ele passar. Vieram muitas alegrias da descoberta ... mas também muitas tristezas no adeus...”
Alice me olhava quieta, enrolava no dedo indicador uma mecha escura e brilhante de seu cabelo curto, brincava na altura da nuca branca próximo ao brinco de pérola que me lembrava a mulher que pensei ser, tardiamente, este meu primeiro amor.
“ Certos dias eu me lembro deste desencontro, deste grande amor que eu perdi.” comecei a puxar as pesadas cordas das lembranças para fora. “Alguns dias sinto a culpa de não ter feito nada direito, de ter colocado tudo a perder. Já em outros, como de uma névoa fria, surge um amargor, um rancor desmedido e a culpo por ter jogado tudo fora.”
“Faz tempo ?” perguntou Alice.
“ Sim, bastante.”
“Você ficaram muito tempo juntos ?”
“ É difícil medir este tempo ... parece que foram anos, mas não passaram de alguns meses.”
“Eu vivi três anos com ela” , Alice pensava em voz alta. “ Foi um tempo feliz, com momentos delicados que faziam tudo ao redor ficar mais leve ... “
“ Parece que é isto que a gente procura no amor, não é ?” eu também pensei alto...
“O que ?”
“ A delicadeza “
Nos olhos de Alice e nos meus pareciam voltar todos os momentos em que o amor tocou nossos corpos como as mais doces pétalas do mundo ... Havia silêncio , luz e tudo o que passara por entre nossos dedos como a areia quente dos desertos ...
“Alice, tudo pode nos fugir, não há nada que seja pra sempre ... apenas nós mesmos e nossa solidão “
“Você se sente sozinho ?” ela me perguntou.
“Todos nós estamos irremediavelmente sozinhos.”
“É assustador ...” disse com os olhos abertos “ mas ao mesmo tempo eu sinto como se o mundo passasse por mim ... a cada foto, a cada quadro, a cada imagem ...”
“Todas as imagens que você tanto ama, não são nada sem o seu olhar.”
Ela pensava quieta. Já era tarde e meu cachorro precisava comer. Alisei minha barba branca e levantei meu velho corpo. Com um sorriso triste Alice disse adeus e eu fui embora. Pisando na calçada, sentindo o vento frio da noite que chegava, ouvi a porta do café abrir novamente. Ouvi ao meu redor pequenos passos e o rosto de Alice surgiu como que do nada. Ela segurou meu rosto envelhecido e com um beijo nos meus lábios secos me disse adeus. Lembro, já longe no meu caminho para casa, de vê-la sentar-se sozinha na mesma mesa do café. Eu via os olhos de Alice acompanhando delicadamente as primeiras luzes da noite que se acendiam devagar.
Eu estava em uma mesa no fundo do café pouco antes de Alice chegar. A garçonete servia minha primeira xícara e eu abria meu caderno de anotações quando a vi entrar pela porta de vidro. Os seus olhos eram o vértice daquele momento, como se a combinação do vestido preto coberto por um mantô cinza, o batente da porta de madeira, o vento da rua que arejava o interior quente e seus aromas abafados, os cabelos soltos e castanhos, a boca aberta entre respiração e desespero...como se tudo isto tivesse o centro gravitacional naqueles olhos abertos, cheios por um furação de sentimentos. Vê-la entrar repentinamente paralisou-me por completo mas aos poucos fui desfazendo a rigidez e fui levado pela sua imagem como que pela correnteza de um rio, sentada ao lado da janela, vendo o dia passar...”
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